Latinoamerica-online

Cultura, Società e Il Mondo dei Caraibi

Teatro e danza 

 

di Mariella Moresco Fornasier

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Teatro é livre "só" na prisão   (7 ottobre 2003)

Mulheres de Papel: Plinio marcos atrás das grades da PFT   (7 ottobre 2003)

 

Teatro é livre "só" na prisão

 

 

 

foto site CMI Brasil

 

No dia 30 de setembro de 2003 o desembargador Adalberto Denser de Sá impediu a apresentação da peça "Mulheres de Papel", em um seminário de criminalistas, no Maksoud Plaza, em São Paulo.
Criado há mais de seis anos, um grupo teatral sem nome, sem atores famosos, sem produção milionária e sem publicidade estrondosa está, pouco a pouco, crescendo dentro de presídios do estado de São Paulo e introduzindo consciência crítica e cultura nesse universo de degradação e injustiças.

Com a coordenação de Jorge Spinola, teatrólogo e funcionário da FUNAP (Fundação de Apoio ao Trabalhador Presidiário) o grupo vem desenvolvendo montagens de peças teatrais dentro de presídios da capital. Spinola começou seu trabalho como educador (no sentido tradicional) na FUNAP há dez anos e nos últimos seis anos começou a unir o trabalho de teatro, que já desenvolvia, com o processo educacional dentro dos presídios.

A primeira montagem aconteceu em uma penitenciária, em Guarulhos, município da grande São Paulo. Depois disso, durante três anos consecutivos, Jorge montou o "Auto da Compadecida" de Ariano Suassuna e "O Homem e o Cavalo" de Oswald de Andrade, com detentos do Centro de Observação Criminológica. Com a desativação do Complexo Penitenciário do Carandiru, o grupo transferiu sua atividade para a Penitenciária Feminina do Tatuapé, onde vem trabalhando com a montagem do texto "Homens de Papel" de Plinio Marcos, rebatizada de "Mulheres de Papel"


CMI Brasil 

Mulheres de Papel

Plinio marcos atrás das grades da PFT


viconcilio@uol.com.br

 

foto da primeira apresentação de Mulheres de Papel

site CMI Brasil

 

 

 

Trecho da monografia apresentada na conclusão do curso de Artes Cênicas na ECA-USP

Primeiramente, foi necessário levantarmos o processo que deu origem às práticas punitivas atuais para entendermos o que está embutido no consolidado discurso da reabilitação, normalmente utilizado para justificar a inserção de atividades artísticas nas penitenciárias e que acaba deformando o intuito principal da liberdade criadora, colocando a arte a serviço de um suposto processo de alteração de comportamentos, manipulados para atender àquilo que o sistema penal na realidade produz, mas tenta esconder: a consolidação das formas de delinqüência que justificam a ação da vigilância instaurada em todos os setores da sociedade tal qual ela está organizada desde fins do século 19.

Dessa forma, o modo com que o diretor Jorge Spínola conduz o processo é extremamente importante para recriar nas participantes uma noção diferente do conceito de regras: o trabalho é o resultado de um esforço coletivo em que todos devem cumprir sua parte na manutenção das leis que regem o funcionamento prazeroso da oficina.
Para ele, seria fácil obrigá-las a chegar na hora, uma vez que pode solicitar a ação das agentes de segurança para esse fim. Mas os objetivos do trabalho incluem também a conquista de uma responsabilidade que seja diferente daquela a que estão acostumadas em seu cotidiano prisional: na oficina, as regras sofrem alterações, são alvo de debates, garantem o próprio interesse que elas depositam sobre o processo, uma vez que suas opiniões são importantes para a prática ali desenvolvida, para a consolidação de algo que elas possam considerar fruto significativo de sua ação sobre o mundo, uma vez que os trabalhos oferecidos a elas não passam de uma forma alienante de passarem o tempo.

As dificuldades iniciais em realizar a oficina, diante da relutância do grupo em se entregar às propostas de jogo, obrigou o diretor a transformar o texto “Homens de Papel”, de Plínio Marcos, em elemento agregador do grupo, à medida em que a partir dele nasceram propostas de jogos possibilitadores da aquisição de elementos da linguagem teatral ao mesmo tempo que assegurava às participantes uma montagem futura.
Coube ao processo de improvisações a partir do texto, portanto, gerar problemas que solucionassem o foco das cenas, a relação de parceria dentro do jogo, além de abranger a compreensão da própria dramaturgia: o que ela diz, quais os sentidos embutidos nos diálogos e a função da ação das personagens dentro de cada cena no desenrolar da ação principal da peça.

Nesse sentido, a opção por uma dramaturgia que tenha forte relação com o contexto em que elas estão inseridas demonstra o quanto a oficina de teatro não está preocupada com outra coisa que não discutir metaforicamente a própria condição por elas vividas, dando-as oportunidade de enxergar criticamente sua realidade.
O teatro não se insere nesse contexto como exercício de criação simplesmente; ele abre discussões, motiva-nos a nos expressarmos e também nos ensina a escutar os outros; é a possibilidade de um entendimento das necessidades do outro em um ambiente que prima pela luta individualista na conquista de privilégios ao mesmo tempo em que massifica a obediência.

A atividade artística acaba promovendo o prazer de dividir, mostrar, permitir e confiar. De entender as necessidades do grupo através de leis que atendam ao interesse coletivo em favor da realização de uma prática na qual todos possuem uma função clara e prazerosa a fim de concretizar um objetivo comum, que no caso é apresentar a peça.
Dessa forma, e não através da exclusão aniquiladora promovida pelo sistema prisional, podemos entender uma outra idéia de reabilitação, pautada em um processo educativo capaz de gerar pessoas conscientes de seu papel social, cidadãos que lutem por seus interesses e que tenham direito de serem escutados, nem que para isso façam uso de um espetáculo teatral.

Mas isso exige um outro modelo de educação, novas formas de participação política, uma nova forma de organização social. Uma outra história deve ser escrita para que atinjamos essas expectativas.

www.Latinoamerica-online.info

Ass. Cult. IMAGO MUNDI 

Direttore Mariella Moresco Fornasier

Registrazione presso il Tribunale di Milano n. 768 del 1/12/2000 

Tutti i diritti riservati