Mulheres de
Papel
Plinio marcos
atrás das grades da PFT
Por Vicente Concilio viconcilio@uol.com.br
foto da primeira apresentação de Mulheres
de Papel
site
CMI Brasil
Trecho da monografia apresentada na conclusão do curso de Artes Cênicas
na ECA-USP
Primeiramente, foi necessário levantarmos o processo que deu origem às
práticas punitivas atuais para entendermos o que está embutido no
consolidado discurso da reabilitação, normalmente utilizado para
justificar a inserção de atividades artísticas nas penitenciárias e
que acaba deformando o intuito principal da liberdade criadora,
colocando a arte a serviço de um suposto processo de alteração de
comportamentos, manipulados para atender àquilo que o sistema penal na
realidade produz, mas tenta esconder: a consolidação das formas de
delinqüência que justificam a ação da vigilância instaurada em
todos os setores da sociedade tal qual ela está organizada desde fins
do século 19.
Dessa forma, o modo com que o diretor Jorge Spínola conduz o processo
é extremamente importante para recriar nas participantes uma noção
diferente do conceito de regras: o trabalho é o resultado de um esforço
coletivo em que todos devem cumprir sua parte na manutenção das leis
que regem o funcionamento prazeroso da oficina.
Para ele, seria fácil obrigá-las a chegar na hora, uma vez que pode
solicitar a ação das agentes de segurança para esse fim. Mas os
objetivos do trabalho incluem também a conquista de uma
responsabilidade que seja diferente daquela a que estão acostumadas em
seu cotidiano prisional: na oficina, as regras sofrem alterações, são
alvo de debates, garantem o próprio interesse que elas depositam sobre
o processo, uma vez que suas opiniões são importantes para a prática
ali desenvolvida, para a consolidação de algo que elas possam
considerar fruto significativo de sua ação sobre o mundo, uma vez que
os trabalhos oferecidos a elas não passam de uma forma alienante de
passarem o tempo.
As dificuldades iniciais em realizar a oficina, diante da relutância do
grupo em se entregar às propostas de jogo, obrigou o diretor a
transformar o texto “Homens de Papel”, de Plínio Marcos, em
elemento agregador do grupo, à medida em que a partir dele nasceram
propostas de jogos possibilitadores da aquisição de elementos da
linguagem teatral ao mesmo tempo que assegurava às participantes uma
montagem futura.
Coube ao processo de improvisações a partir do texto, portanto, gerar
problemas que solucionassem o foco das cenas, a relação de parceria
dentro do jogo, além de abranger a compreensão da própria dramaturgia:
o que ela diz, quais os sentidos embutidos nos diálogos e a função da
ação das personagens dentro de cada cena no desenrolar da ação
principal da peça.
Nesse sentido, a opção por uma dramaturgia que tenha forte relação
com o contexto em que elas estão inseridas demonstra o quanto a oficina
de teatro não está preocupada com outra coisa que não discutir
metaforicamente a própria condição por elas vividas, dando-as
oportunidade de enxergar criticamente sua realidade.
O teatro não se insere nesse contexto como exercício de criação
simplesmente; ele abre discussões, motiva-nos a nos expressarmos e também
nos ensina a escutar os outros; é a possibilidade de um entendimento
das necessidades do outro em um ambiente que prima pela luta
individualista na conquista de privilégios ao mesmo tempo em que
massifica a obediência.
A atividade artística acaba promovendo o prazer de dividir, mostrar,
permitir e confiar. De entender as necessidades do grupo através de
leis que atendam ao interesse coletivo em favor da realização de uma
prática na qual todos possuem uma função clara e prazerosa a fim de
concretizar um objetivo comum, que no caso é apresentar a peça.
Dessa forma, e não através da exclusão aniquiladora promovida pelo
sistema prisional, podemos entender uma outra idéia de reabilitação,
pautada em um processo educativo capaz de gerar pessoas conscientes de
seu papel social, cidadãos que lutem por seus interesses e que tenham
direito de serem escutados, nem que para isso façam uso de um espetáculo
teatral.
Mas isso exige um outro modelo de educação, novas formas de participação
política, uma nova forma de organização social. Uma outra história
deve ser escrita para que atinjamos essas expectativas.
CMI
Brasil 18/09/2003 |