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el portal del Caribe |
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Triste memoria de mis
putas
Urariano Mota urarianoms@uol.com.br
As
coisas têm um preço. Se nem sempre como mercadoria, com um valor que se troca
no mercado, ainda assim as coisas têm um preço. Vejam a fama, por exemplo.
Mais precisamente, a fama de um escritor, para o escritor. Nós, os anônimos do
limbo, acreditamos sempre que a fama para um escritor é o paraíso. Assim
acreditamos porque imaginamos que da fama o escritor é o possuidor. E com isto
imaginamos também algo melhor que o paraíso, que nos perdoem a ingenuidade
imaginativa: imerso num prazer inconcebível, vislumbramos o escritor como Ele,
o Supremo, porque o vemos como o dono do paraíso. Que nos perdoem os loucos,
porque são mais sensatos. Com sua lógica desconcertante, eles sabem que da
fama o escritor é o possuído. Todo
o parágrafo acima foi escrito pensando em Gabriel García Márquez. Mais
precisamente em Memória de mis putas tristes, que tenho diante de mim. Já na
capa o destaque é o autor, não a obra. O seu nome, “ele”, este ser entre
aspas que para os editores é ouro de garantida liquidez, anuncia-se em letras
maiores, de cor laranja, no alto. Abaixo, em letras menores, vem o que na capa
é um subtítulo, Memória de mis putas tristes. Depois, a imagem de um senhor
curvado, encanecido, a caminhar de pijama, de costas para o leitor. Insinua-se
como um segundo ele, semelhante ao nome em destaque no alto, como um autor que
escreve suas memórias no outono da sua vida. A armadilha está aberta, a cilada
para os pássaros se encontra a ponto de disparar. Os incautos, os que vão
procurar a memória das putas de García Márquez, entram. E caem. Pero nosotros,
no. Jamais cairíamos em armadilha tão primária. Nós, os cultos, os que
admiramos o gênio de Márquez, não. Sabemos que o autor não tem culpa da
enganadora capa do livro, sabemos e compreendemos que não se culpa um artista
pelo comércio que a casa editora faz da sua arte. E por nos guiar a esperança,
a memória que temos do autor, também entramos. E caímos, também. Assim
como em um reencontro, em que primeiro vemos com os olhos da recordação, lemos
a primeira frase de Memoria de mis putas tristes, “El año de mis noventa años
quise regalarme una noche de amor loco con una adolescente virgen”, com os
olhos da lembrança dos outros Márquez. E assim também como num reencontro, a
realidade física e imediata acaba por se meter entre as realidades guardadas,
até que se mostre sobre a face da recordação. E esta nova camada, a do
Gabriel García Márquez de Memoria de mis putas tristes, não é boa.
Vejamos-lhe sem medo as linhas desse rosto. Este
livro não se realiza como narração, e isto, este ato frustrado, não se faz
por incapacidade técnica do autor, por supuesto. A sombra da sua história, as
suas realizações anteriores fazem-no um homem realizado como criador. O seu
fracasso neste livro é a vitória de uma impossibilidade mais íntima. Uma
leitura de superfície anotaria que há no relato “quebradizos” do gênero
literário romance, que em lugar de o fortificarem mais aumentam a sua fraqueza,
pela descontinuidade, pela frouxidão que trazem ao relato. Para ser um
refletido e aprofundado, digamos, um largo conto, falta a Memória uma concentração
obsessiva, uma seleção rigorosa do mundo e da ação do seu personagem, como
um rigoroso close de um indivíduo na multidão, mas um close que integrasse o
ambiente em volta, do que dá cara e mais que três dimensões ao homem em foco.
Essa ausência de organização inteira, com a força de um olhar que abarca
todo o essencial, seria anotado por um leitor de passagem, mas que não é um
leitor ligeiro, porque vem de um aprendizado com A Morte de Ivan Ilitch, ou até
mesmo de um relato menos fecundo que o russo, como O Velho e o Mar. Vendo menos
ligeiro, percebe-se que a explicação da fragilidade de Memoria de mis putas
tristes se dá por uma gênese anterior à forma, antes mesmo da pura e simples
técnica: há um esvaziamento do objeto narrado – nada resta, nada consegue
firmar-se em pé do Velho periodista e do seu Mar de putas. E não por acaso, o
“narrador”, o personagem central, o personagem sobre o qual tudo gira,
apesar de periodista famoso, sequer tem nome. O
vazio do nome, com dois ou três apodos, mencionados de passagem numa só linha,
sem qualquer conseqüência, esse vazio de substância do personagem mais se
ressalta quanto mais ele fala de si. Assim como uma mentira vazia que mais se
mostra oca quanto mais se adorna de características gratuitas, o personagem,
para se mostrar um velho, nos diz: “Em
la quinta década había empezado a imaginarme lo que era la vejez cuando noté
los primeros huecos de la memória. ... Um dia desayuné dos veces porque olvidé
la primera... Para entonces tenia en la memória una lista de rostros conocidos
y otra con los nombres de cada uno, pero en el momento de saludar no conseguia
que coincidieran las caras con los nombres.” Ora,
um homem que escreve todas as semanas, que durante décadas foi um “inflador
de cables”, não chega à decrepitude dessa maneira. Isto é o que nos dizem a
experiência observada e a pesquisa científica. Intelectuais ativos envelhecem
nas faculdades mentais mais lento que os indivíduos cultivadores da pura saúde
física. No caso particular do personagem, é de se notar que ele é, ou pelo
que diz ser, um homem acostumado ao estudo, ao ensino e ao exercício do latim.
No entanto, a prosa desse homem lembra mais a de um outro velho conhecido, a do
escritor García Márquez. Na escrita do personagem não há palavras preciosas,
de sabor da etimologia, nem aquelas linhas lapidares, que sobrevivem
independentes como pedras unidas, que são quase um vício dos latinistas.
Dizendo de modo mais simples, inexistem arcaísmos e exibição de latim nesse
velho professor de latim. Poderia ser dito, esse latinista só existe na
caricatura de professores de latim. Concordo, mas dois pontos: 1 – a linguagem
desse latinista não pode nem deveria ser a de Gabriel García Márquez; 2 –
mais sério: esse latinista deveria ter um humanismo que assimilasse o latim
como uma contingência da sua vida pessoal, nada mais que isso. Há
uma contradição interna entre personagem e narrador. Por exemplo, “ele”, o
velho de 90 anos, se expõe ao ridículo, conscientemente. Isto, esta exposição,
a vida nos ensina, fere o amor-próprio de indivíduos que não são escritores.
(Já se vê o ser degenerado que é um escritor – não recua nem mesmo diante
da ferida mais íntima, para assim melhor alcançar a verdade.) É próprio da
gente humana evitar a dor, a recordação da dor, o rememorar uma humilhação.
Quem viu Carta a meu pai, de Kafka, quem viu Rousseau, sabe que a expressão do
que fere envergonha, dói, magoa, mas não detém o escritor. Diferente do comum
da gente normal, que evita mostrar o fundo feio à sociedade. Mas o personagem
de Memoria, não. Ainda que se confesse ausente da vocação e virtude de um
narrador, e ignorante por completo das leis da composição dramática (o que já
em si é uma ignorância, o acreditar em “leis” da composição), ainda
assim, aqui e ali se expõe ao ridículo, que não se envergonha nem de reclamar
que às vezes lhe arde o cu. É claro, isto são palavras de broma do escritor
Gabriel García Márquez, não do velho periodista. Essa
mistura de vozes, do escritor Gabriel e do personagem, leva com certeza a
dificuldades na frase da página impressa. Em parágrafos do livro há frases
que não acompanham, pior, que se desconectam, que se desunem da situação e
fato a que se referem. Há períodos que se assemelham a frases de montagem,
inserção mal feita dos comandos “recortar” e “colar” do programa Word.
Por exemplo: “Ximena
iba haciéndose más voraz cuanto mejor nos conocíamos, se aligeraba de corpiños
y pollerines a medida que apretaban los bochornos de junio, y era fácil
imaginarse el poder de demolición que debía tener en la penumbra”. E na
mesma linha, de imediato, depois do ponto da palavra penumbra: “A los dos
meses de noviazgo no teníamos de qué hablar, y ella planteó el tema de los
hijos sin decirlo, tejiendo botitas en crochet de lana cruda para recién
nacidos.” Ora, da Ximena voraz na penumbra ao crochet alguma coisa deve estar
faltando, por supuesto. As
anotações feitas até aqui dizem respeito mais a um público exigente,
desejoso e amante da escrita de Gabriel García Márquez. Mas existem algumas
importantes para o grande público, aquele que esgota edições de cem mil
exemplares em três meses. Esse grande público deseja ação, sexo, e dá um
valor especial a um livro pelo enredo. Para esse grande consumidor de hambúrguer
e best-seller anotamos: do título Memoria de mis putas tristes, do número de
putas anunciadas e prometidas pelo narrador, “hasta los cincuenta años eran
quinientas catorce mujeres con las cuales había estado por lo menos uma vez”,
até a frase final vai uma grande frustração. Excluídas Ximena e Damiana, que
não são putas, o narrador relata 3, três, Casilda, Castorina, Delgadina.
Dizemos relata e nisto vai uma imprecisão de vocábulo. Com exceção de
Delgadina, a donzela que ele não desvirgina, as outras duas são pequenas variações
ao tema (supondo que haja um), são fugas, mais dispersivas que orgânicas de
Bach. Em todas, o que é muito desagradável, ocorrem linhas que são versos medíocres
de boleros ruins, que soam como uma imitação pobre de lirismo: “Nadie
merece ser más felices que ustedes” , ou “y conté las doce campanadas de
las doce con mis doce lágrimas finales...”. Diante disto, qualquer comentário
será apagado e vil.
Este
livro de García Márquez é bem típico do que a máquina do mundo faz de um
escritor. E isto não é simplesmente a máquina editorial, mas a máquina mais
ampla, do business, que transforma um criador num pop star. Quando Scott
Fitzgerald relatava em The Crack-Up, A Derrocada, que “parecia um bom negócio
ser um homem de letras bem sucedido”, mas que se descobriu
prematuramente como um fracasso, Hemingway zombou cruelmente de Scott. Tão
diferente de Fitzgerald, ele, Hemingway, massa de músculos, viril, de cojones
de propaganda, jamais escreveria um texto como A Derrocada, porque era um
vitorioso, um herói, de magazines, de business e de fama. Mas o processo da
vida é mais sutil, astucioso e delicado. Hemingway também chegaria a um
crack-up, até o blow up, com uma espingarda, amplo e insofismável na testa. Em
um caso e outro, a máquina do mundo, que não escolhe carne, prepara a sua matéria-prima
antes. Utiliza a fama para secar, desidratar um escritor do seu húmus, o que
vale dizer, reduz o criador a uma griffe, o que vale dizer, faz do seu estilo um
trade mark assinado, o que vale dizer, faz do estilo e do homem uma caricatura.
Assim, nessa moenda vitoriosa da máquina, ser García Márquez é escrever à
maneira de Garcia Márquez, é reproduzir ao tédio seus cacoetes, ampliar blow
up seus defeitos de letras de boleros ruins nas frases, expor um crack-up de
piadas de mau gosto, porque afinal isso é puro Gabriel García Márquez. Mas
nada, nada que se compare ao criador antes da fama, aquele de frases virgens,
desconcertantes, como em El coronel no tiene quién le escriba, onde havia uma
personagem que de tão pequena e elástica parecia atravessar paredes.
Marzo de 2005
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