"Temos
negros no Governo e isto representa mudanças"
Rogéria Araújo - jornalista da Adital enviada a Belo Horizonte.
Os
negros,
no Brasil, são a maioria. Têm uma história sempre marcada por muita
luta. Primeiro contra a escravidão e, mais adiante, pela inclusão
social. São eles que lideram o ranking de desempregados em todos os
Estados brasileiros.
Mas muito desse panorama vem mudando nos últimos anos na medida em que os
movimentos negros foram se organizando e reivindicando seus direitos de
cidadãos. E, para tanto, não bastou só a organização, mas um
direcionamento eficaz que vem surtindo efeitos cada vez mais evidentes.
Esses são alguns dos assuntos tratados nesta entrevista concedida por
Jurema Werneck, do Criola - Organização das Mulheres Negras, durante o Fórum
Social Brasileiro.
Enérgica e bem determinada em suas declarações, ela conta que tem
havido mudanças consideráveis em relação ao tratamento que o negro vem
recebendo na sociedade brasileira. "Tem mulheres negras - Marina
Silva, Benedita da Silva -, tem um homem também, o Gilberto Gil. Eles só
estão lá porque a sociedade também mudou e o Governo Lula foi capaz de
incorporar essa mudança".
Adital - O Brasil, sem nenhuma sombra de dúvida, é um país racista.
Você acredita que os movimentos negros já estão conseguindo interferir
nesse processo, já existem mudanças consideráveis nesse sentido?
Jurema Werneck - Está mudando e isso não é de agora. Há dois anos,
esse governo extremamente neoliberal do Fernando Henrique Cardoso, esse
governo direitista, foi obrigado a assumir publicamente que o Brasil era
um país racista. E foi obrigado por quem senão pela sociedade brasileira?
Então, isso prova uma mudança, até pouco tempo o Brasil era considerado
uma democracia racial, onde negros, indígenas, brancos, ciganos e
orientais eram irmãos. E agora sabemos que não é. Eu costumo dizer que
o processo de racismo na sociedade brasileira é como a superação do
alcoolismo para o alcoólatra. Primeiro, ele assume que é, depois, tem
doze passos para seguir e poder transformar a sua própria realidade. O
mesmo caminho pode ser produzido pelo racismo.
Adital - E o desempenho do atual governo brasileiro nesses 11 meses tem
sido satisfatório para o movimento negro?
Jurema Werneck - O Lula deu uma declaração dizendo que Naníbia nem
parecia um país africano porque era tão limpo. Faz parte do pensamento
dele porque faz parte do pensamento de todo brasileiro. Há uma diferença,
o Governo Lula criou uma secretaria especial com status de ministério
para a promoção da igualdade racial. Isso é um passo importante. Tem
mulheres negras - Marina Silva, Benedita da Silva -, tem um homem também,
o Gilberto Gil. Eles só estão lá porque a sociedade também mudou e o
Governo Lula foi capaz de incorporar essa mudança. O que acho agora é
que cabe a nós, que colocamos o Lula lá, ter um papel de resistência,
inclusive, a esse repertório conservador que ele lança mão de vez em
quando, ou até mesmo racista como ele fez, e a nossa obrigação é
manter uma vigilância cotidiana com ele para que ele possa romper com
esse repertório conservador e ter idéias mais criativas, falas que
possam estar de acordo com esse processo que nós estamos conseguindo
implantar no Brasil que é de superação do racismo.
Adital - Você acha que esse sistema de cotas em determinados segmentos
é um avanço para a inclusão dos negros? Não termina segregando ainda
mais?
Jurema Werneck - Acho que esse é um dos caminhos. Nós partimos do
princípio de que o sistema de cotas vem desde o império. Antes, eram os
fidalgos. Sempre houve esse sistema. Quando eu entrei na Universidade para
fazer Medicina eu era a única mulher negra, e isso nem faz tanto tempo
assim. Então esse sistema de cotas que privilegiavam os brancos estava em
vigor. O que nós estamos contrapondo são outras inclusões. Nós somos a
favor da cota de mulheres nos partidos políticos, de cotas para
deficientes físicos e somos a favor de quantas cotas forem necessárias
para a inclusão de todos. Só acreditamos que a cota sozinha não resolve,
o que nos interessa é política pública em todos os níveis de inclusão.
Mas a cota é uma das ferramentas, mas não se pode parar por aí.
Adital - E em nível nacional, o movimento negro está bem atuante pelo
país, está bem articulado?
Jurema Werneck - O movimento negro ele tem sido bem organizado a ponto
de poder pautar um ministério. Isso demonstra o grau de organização e o
grau de efetividade dessa organização. O que se dá na verdade é não
visibilidade. Mas o movimento negro teve organização suficiente primeiro
para superar a escravidão e, segundo, para superar a exclusão. Depois da
abolição o que se fez foi querer que todos nós voltássemos para a África
e ficamos aqui e somos a maioria da população. Agora estamos tendo
organização suficiente para pautar parte da política pública do país
do Governo Lula.
Adital - Esses suportes como o disque-racismo funcionam? Vocês têm
dados sobre isso?
Jurema Werneck - Eu não tenho os dados. Mas eu acredito que funciona,
mas abrange uma parte ainda pequena do contingente de situações racistas
que se apresentam. O Disque-racismo é um instrumento também importante.
Todas as portas por onde se entra denúncia contra o racismo e as
possibilidades de superação são extremamente válidas.
Adital - Diante de tanta luta, de tantas palestras que você tem feito,
diante de tantas tentativas de conscientização, o preconceito afinal tem
diminuído?
Jurema Werneck - Ainda não diminui, mas vai. Disso eu tenho certeza
absoluta, é por isso que estamos levando essa luta em frente. E vamos
conseguir.
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9.novembro/2003 |