Entidades fazem
balanço positivo do I FSB
Dilene Ferreira e Eduardo Franco - jornalistas da equipe especial da
Adital no I FSB
Um
balanço positivo do I Fórum Social Brasileiro e do trabalho que vem
sendo realizado pelos movimentos sociais no País foi feito pelos
participantes da última Conferência do evento chamada de "Ação
Global dos Movimentos Sociais", no final da manhã deste domingo, dia
9, no Ginásio do Mineirinho, em Belo Horizonte. Participaram dela o
educador Moacir Gadotti, do Fórum Mundial da Educação; Raimunda Mascena,
da Marcha Mundial das Mulheres; Rubens Vinícius, da Organização
Continental e Caribenha de Estudantes (Oclae); e Marcos Arruda, membro do
Conselho Mundial de Igrejas, da coordenação da Campanha Nacional Contra
a Alca, e do Centro de Estudos de Política Econômica do Cone Sul.
Para o estudante Rubens Vinícius, a eleição de Luís Inácio Lula da
Silva à presidência do Brasil foi uma vitória dos movimentos sociais.
Ele argumentou que, desde o fim da ditadura militar, os grupos sociais vêm
se empenhando para a eleição de um governo popular, que foi conseguida
com a eleição do ex-metalúrgico. O representante da Oclae acha, contudo,
que os movimentos sociais precisam pressionar o Governo para que ele
corrija alguns erros, como foi o caso da assinatura do último acordo com
o Fundo Monetário Internacional (FMI); e não participe da Área de Livre
Comércio entre as Américas (Alca).
Em nível latino-americano, Vinícius salientou o trabalho importante que
vem sendo feito pelos movimentos sociais, principalmente nos últimos dez
anos. Ele lembrou que nesse período nove presidentes da República
corruptos e representantes do imperialismo norte-americano, entre eles
Fernando Collor de Mello, do Brasil, foram depostos pelos movimentos
sociais. O representante da Oclae falou do importante trabalho de articulação
que é feito pela Rede Mundial de Movimentos Sociais, que estabelece o
calendário de lutas em todo o mundo. "Temos que globalizar a luta e
a esperança", convocou.
Moacir Gadotti reforçou dizendo que o Fórum Social Brasileiro é um espaço
importante para convivência e unificação de algumas bandeiras de luta
dos movimentos sociais. Ele observou que os Fóruns Sociais reacenderam a
esperança e o desejo de luta, que os partidários do neoliberalismo
acreditavam ter sepultado. Gadotti comentou que os Fóruns Sociais
corroboram a proposta do saudoso educador Paulo Freire, que dizia que
"é no movimento e na luta que o povo se forma".
O educador defendeu uma mudança do conceito "movimentos sociais
organizados", tendo em vista que a maioria da população que sofre
com os reveses provocados pelo neoliberalismo não está integrada a eles.
Gadotti argumenta que é necessário alargar esse conceito para incluir
toda a população nessa luta. "Todos precisam estar engajados nessa
luta de transformação do Brasil e do mundo em lugares onde todos tenham
seus direitos de cidadãos respeitados", enfatizou.
"A pobreza no Brasil tem sexo e color. Ela é feminina e é
negra". Essa foi uma das mais fortes afirmações da coordenadora
nacional da Marcha de Mulheres, Raimunda Mascena, durante sua participação
na sexta e última conferência do I FSB, em Belo Horizonte, sobre a ação
dos movimentos sociais. Segundo ela, 12,6% dos títulos de reforma agrária
no Brasil estão nas mãos das mulheres e as trabalhadoras rurais compõem
o vergonhoso universo de 80% das pessoas que não têm acesso à renda
monetária no país. "Tudo isso nos mostra que é impossível
combater a pobreza sem a criação de políticas públicas voltadas para
as mulheres e que o caminho para a construção desse Brasil mais justo
que queremos e pelo qual lutamos neste Fórum passa pelo universo feminino",
discursou, sendo calorosamente aplaudida.
Mascena enfatizou que a situação de opressão, de desigualdade e de
subordinação das mulheres ocorre no mundo inteiro e que, somente a união
de forças permitirá o reconhecimento da importância das mulheres na
construção da história de qualquer sociedade. Ela lembrou a "I
Marcha de Mulheres à Brasília", no ano 2000, que levou à capital
federal 20 mil trabalhadoras rurais. Na ocasião, elas entregaram ao
ex-presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, a "Carta das
Mulheres Brasileiras", um documento que fala dos problemas
enfrentados pelas mulheres trabalhadoras no país e aponta caminhos para a
superação dos mesmos. "Em 2001 prosseguimos nossa luta e em 2002
marchamos novamente para Brasília, desta vez com 50 mil mulheres, para
dizer publicamente ao governo que se não se pensar a situação das
mulheres, dos negros, dos índios, da juventude e dos idosos, outro Brasil
não será possível", relatou.
O economista e educador Marcos Arruda comparou o formato do Estádio do
Mineirinho - onde se realizam as conferências do I FSB - a uma mandala (objeto
de troca de energias positivas) e convocou os presentes a firmarem seus
pensamentos em pessoas e grupos que lutam pela vida e que têm esperança
em um mundo melhor. De acordo com Arruda, "um outro mundo é possível,
porque outra humanidade é possível".
Ele lembrou os mortos e desaparecidos do regime militar no Brasil, que com
sua morte contribuíram para que a chama da esperança continuasse em
tantos corações, as mulheres, os trabalhadores e trabalhadoras rurais,
os ecologistas e ambientalistas, as crianças e jovens vítimas do sistema
capitalista, os trabalhadores urbanos dos setores formal e informal, os
povos indígenas e os negros do Brasil e da América Latina, os migrantes
e tantos outros grupos que desejam um país mais justo e humano, capaz de
garantir uma vida digna para todos.
Para o autor do livro "Humanizar o Infra-Humano" (Editora Vozes),
a humanidade necessita, urgentemente, de um sistema de consumo ético e
organizado, que permita a "economia do suficiente e a partilha do
excedente". Sob aplausos, ele encerrou sua participação nesta última
conferência do I FSB convocando os presentes a transformarem o próximo
dia 21 de novembro - último dia da reunião de ministros sobre a Alca -
em uma data nacional de articulação contra a Área de Livre Comércio
entre as Américas e a insistirem na realização, em três de outubro
deste ano, durante as eleições municipais, do Plebiscito Nacional contra
a Alca. O último apelo feito pelo economista foi para que o público se
abraçasse: "Que cada um abrace aquele que está à sua direita ou
esquerda e que, com esse gesto, possamos semear a cultura da paz e da não
violência".
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9.novembro/2003 |