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Caso Roosevelt: culpado é o Estado



Rogéria Araújo - jornalista da Adital

 

A tragédia ocorrida no mês passado, quando foram encontrados 29 corpos de garimpeiros supostamente mortos pelos indígenas do povo Cinta Larga, que vivem na reserva Roosevelt, em Rondônia, precisa ser avaliada dentro de um contexto mais amplo. É o que afirma o vice-presidente do Conselho Indigenista Missionário, Saulo Feitosa.

Segundo ele, se há um culpado pelo que aconteceu, esse culpado é o Estado Brasileiro que não ofereceu proteção suficiente para a Terra Indígena, nem apresentou alternativas de sobrevivência para os garimpeiros, que sempre atuaram de forma ilegal, explorando as reservas naturais da Terra Indígena dos Cinta Larga.

"É lamentável? É. Trata-se de pessoas mortas, no caso os garimpeiros, que estavam lutando pela sobrevivência. Se nós tivéssemos que responsabilizar alguém, quem seria o responsável? O Estado Brasileiro. Porque nem protege a Terra Indígena, nem apresenta alternativas de sobrevivência para essa população garimpeira, que é uma população enorme, e que é flutuante", afirma Feitosa, acrescentando que muitos dos garimpeiros que invadiram a Terra Indígena Roosevelt, já passaram por outras invasões, como a das terras dos Ianomâmi, Raposa Serra do Sol, entre outras. "É uma população que migra por uma questão de sobrevivência".

De acordo com o vice-presidente do Cimi, muitas das informações a respeito do episódio precisam ser contextualizadas, uma vez que o povo Cinta Larga tem em seu histórico enfrentado uma série de conflitos e sempre tentando se estabelecer com autonomia. Por outro lado, as invasões e explorações de suas reservas naturais têm sido constantes.

O tempo de contato do povo Cinta Larga com a chamada "sociedade branca" é de apenas 30 anos. Durante esse tempo, a referência que eles têm de "branco", explica Feitosa, são essas pessoas que invadiram, colonizaram e exploraram suas terras.

"Nós analisamos o conflito dentro de um contexto mais amplo. Em nível de Brasil, porque não é a única terra indígena que tem invasão de garimpeiros, ela é apenas mais uma terra indígena invadida por garimpeiros. Em todas essas terras invadidas têm conflitos e, geralmente, nos casos em que aconteceram assassinatos, os índios sempre foram as vítimas. A novidade nesse caso é que as vítimas são não-índios", comentou.

Durante a maior parte do tempo, o Estado Brasileiro foi ausente na região, o que só aumentou o atrito e a falta de fiscalização na área. Somente entre 2002 e 2003, é que a Fundação Nacional do Índio (Funai) resolveu instalar a Força Tarefa e expulsou milhares de garimpeiros da reserva. Ao que consta, essa foi a única intervenção no Estado no sentido de conter os conflitos entre índios e garimpeiros.

Mas, um outro fato importante que precisa ser levado em consideração diz respeito aos interesses econômicos que estão por trás deste conflito. "Como o Estado não lhes assegura nada, terminam sendo utilizados por grupos econômicos que os usam como massa de manobra. O que é grave é que por trás dos garimpeiros, que é a ameaça visível, há uma ameaça invisível: os empresários do garimpo que controlam essa parte e acabam se aproveitando de situações de conflitos como essas".

Relatório Dhesc

Entre os dias 16 e 17 de dezembro do ano passado, a Plataforma Brasileira de Direitos Humanos, Econômicos, Sociais e Culturais (Dhesc - Brasil) fez uma visita às quatro Terras Indígenas (Roosevelt, Parque Aripuanã, Serra Morena e Aripuanã) que são habitadas pelo povo Cinta Larga. O relatório final, feito no final de dezembro, apontava o conflito que já existia e adiantava que a situação se caminhava para uma dimensão muito maior, como a que ocorreu recentemente.

"A maior pressão que sofrem hoje os indígenas Cinta Larga tem origem na exploração ilegal dos recursos naturais em suas terras", salienta o relatório, que cita a ainda a retirada dos garimpeiros ilegais da área em janeiro de 2003, através da Força Tarefa, e lembra que a exploração e colonização da terra só geraram danos para o povo das quatro áreas. Os Cinta Larga possuem hoje 2,7 milhões de hectares de terra. Na década de 60, essa área era equivalente a 6 milhões de hectares. Essas perdas, afirma o relatório, estão totalmente relacionadas à exploração e colonização dos não-índios.

Fazendo referência ao relatório do Dhesc, Saulo Feitosa explica que os Cinta Larga sempre foram submetidos a uma onda de violência muito grande. "É tanto que eles saíram de uma população de 5.000, em 1973, para 1.300, hoje. Sofreram o massacre do Paralelo 11 (chacina ocorrida há 40 anos) e, seguido a esse, vários outros casos de genocídio. Com o Estado Brasileiro ausente, eles não tiveram por parte do Poder Executivo nenhuma colaboração, nenhum apoio para estabelecer o contato com autonomia", disse.

Durante a Força Tarefa foi proposta uma parceria para combater o garimpo ilegal. Entre março e agosto do ano passado não havia garimpeiros na área. O problema, continua, é que quando o Estado se ausenta, eles voltam com muita intensidade.

"No nosso entendimento, os índios chegaram ao limite. Sobre as comprovações da morte, culpados e etc, é o inquérito policial que vai ter que chegar a essas conclusões. A relatoria do inquérito é quem vai poder, de fato, decifrar o que aconteceu", disse.

www.adital.org.br  3.maio/2004

 


 

Caso Roosevelt: culpable es el Estado


Rogéria Araújo - periodista de Adital 

 

La tragedia ocurrida el mes pasado, cuando fueron encontrados 29 cuerpos de garimpeiros (buscadores de piedras preciosas) supuestamente muertos por los indígenas del pueblo Cinta Larga, que viven en la reserva Roosevelt, en Rondônia, región Norte de Brasil, necesita ser evaluada dentro de un contexto más amplio. Es lo que afirma el vicepresidente del Consejo Indigenista Misionero, Saulo Feitosa.

Según él, si hay un culpable por lo que sucedió, ese culpable es el Estado brasilero que no ofreció protección suficiente a la Tierra Indígena, ni presentó alternativas de supervivencia a los garimpeiros, que siempre actuaron en forma ilegal, explotando las reservas naturales de la Tierra Indígena de los Cinta Larga.

"¿Es lamentable? Lo es. Se trata de personas muertas, en el caso de los garimpeiros, que estaban luchando por la supervivencia. Si nosotros tuviésemos que responsabilizar a alguien, ¿quién sería el responsable? El Estado brasilero. Porque ni protege la Tierra Indígena, ni presenta alternativas de supervivencia para esa población garimpeira, que es una población enorme, y que es fluctuante", afirma Feitosa, agregando que muchos de los garimpeiros que invadieron la Tierra Indígena Roosevelt, ya pasaron por otras invasiones, como la de las tierras de los Ianomâmi, Raposa Serra do Sol, entre otras. "Es una población que migra por una cuestión de supervivencia".

De acuerdo con el vicepresidente del Cimi, muchas de las informaciones que tienen que ver con el episodio necesitan ser contextualizadas, ya que el pueblo Cinta Larga ha enfrentado en su histórico una serie de conflictos y siempre intentando establecerse con autonomía. Por otro lado, las invasiones y explotaciones de sus reservas naturales han sido constantes.

El tiempo de contacto del pueblo Cinta Larga con la llamada "sociedad blanca" es de apenas 30 años. Durante ese tiempo, la referencia que ellos tienen del "blanco" son, explica Feitosa, esas personas que invadieron, colonizaron y explotaron sus tierras.

"Nosotros analizamos el conflicto dentro de un contexto más amplio. En el ámbito de Brasil, porque no es la única tierra indígena que tiene invasión de garimpeiros, es apenas otra tierra indígena invadida por garimpeiros. En todas esas tierras invadidas hay conflictos y, generalmente, en los casos en que hubieron asesinatos, los indios siempre fueron las víctimas. La novedad en este caso es que las víctimas son no indios", comentó.

Durante la mayor parte del tiempo, el Estado brasilero estuvo ausente en la región, lo que sólo aumentó la fricción y la falta de fiscalización en el área. Solamente entre 2002 y 2003, fue que la Fundación Nacional del Indio (Funai) resolvió instalar la Fuerza de Tarea y expulsó a miles de garimpeiros de la reserva. Por lo que consta, esa fue la única intervención en el Estado en el sentido de contener los conflictos entre indios y garimpeiros.

Sin embargo, otro hecho importante que necesita ser tenido en consideración es el que tiene que ver con los intereses económicos que están por detrás de este conflicto. "Como el Estado no les asegura nada, terminan siendo utilizados por grupos económicos, que los usan como masa de maniobra. Lo que es grave es que por detrás de los garimpeiros, que es la amenaza visible, hay una amenaza invisible, los empresarios del garimpo que controlan esa parte y terminan aprovechándose de situaciones de conflictos como estas".

Informe Dhesc

Entre los días 16 y 17 de diciembre del año pasado, la Plataforma Brasilera de Derechos Humanos, Económicos, Sociales y Culturales (Dhesc - Brasil) hizo una visita a las cuatro Tierras Indígenas (Roosevelt, Parque Aripuanã, Serra Morena y Aripuanã) que están habitadas por el pueblo Cinta Larga. El informe final, realizado a fines de diciembre, ya señalaba el conflicto existente y adelantaba que la situación se encaminaba hacia una dimensión mucho mayor, como la que ocurrió recientemente.

"La mayor presión que sufren hoy los indígenas Cinta Larga tiene su origen en la explotación ilegal de los recursos naturales en sus tierras", destaca el informe, que cita además la retirada de los garimpeiros ilegales del área en enero de 2003, a través de la Fuerza de Tarea, y recuerda que la explotación y colonización de la tierra sólo generaron daños para el pueblo de las cuatro áreas. Los Cinta Larga poseen hoy 2,7 millones de hectáreas de tierra. En la década del 60, esa área era equivalente a 6 millones de hectáreas. Esas pérdidas, afirma el informe, están totalmente relacionadas con la explotación y colonización de los no indios.

Haciendo referencia al informe del Dhesc, Saulo Feitosa explica que los Cinta Larga siempre fueron sometidos a una onda de violencia muy grande. "Tanto, que ellos pasaron de una población de 5.000 en 1973, a una de 1.300, el día de hoy. Sufrieron la masacre del Paralelo 11 (matanza ocurrida hace 40 años) y, después de esa, varios otros casos de genocidio. Con el Estado brasilero ausente, no tuvieron por parte del Poder Ejecutivo ninguna colaboración, ningún apoyo para establecer el contacto con autonomía", dijo.

Durante la Fuerza de Tarea fue propuesta una cooperación para combatir el garimpo ilegal. Entre marzo y agosto del año pasado no había garimpeiros en el área. El problema continúa, y es que cuando el Estado está ausente, ellos vuelven con mucha intensidad.

"A nuestro entender, los indios llegaron al límite. Sobre las comprobaciones de la muerte, culpables, etc., es la investigación policial que va a tener que llegar a esas conclusiones. La información de la investigación es quién va a poder, de hecho, descifrar lo que sucedió", dijo.

www.adital.org.br    3.mayo/2004

 

 

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